Entrada para o 1º Ciclo
A entrada de um filho para o 1º ciclo é um momento muito importante na vida
da criança e dos pais. Decidir se um filho já está pronto para ingressar no 1º
ano ou se deve aguardar mais um ano para desenvolver certas
capacidades/competências não é uma tarefa fácil.
Os pais encaram
esta mudança como uma transição do lúdico para o trabalho. “Agora é a
sério”– Transmitem como se o período pré-escolar não fosse essencial para
o amadurecimento da criança e o desenvolvimento das competências
necessárias para prepará-los para este momento.
Partindo do panorama geral: na maioria dos países, a criança entra na
escola entre os 5 e os 7 anos. No entanto, uma criança com 5 anos tem
características substancialmente diferentes de uma de 6, tal como uma de 6 tem
de uma de 7. Há crianças com 5 anos que aparentemente estão “aptas” para
ingressar no 1º ano, mas muitos são os casos, em que os pais acabam por perceber
que teria sido benéfico ter esperado mais um ano. A pressão escolar é muito grande e
o tempo para brincar e para dormir é mais reduzido.
Em alguns países, dando o exemplo dos EUA ou, países nórdicos como a Finlândia ou a Suécia, há cada vez
mais pais com filhos de 5 anos que optam por aguardar mais um ano, pois a
criança de 5 será das mais novas na turma, o que traz as suas consequências, enquanto que entrando com 6 ou até 7 anos faz com que esteja em pé
de igualdade e seja respeitada pelas outras crianças e reconhecida pelos professores, como sendo mais velha e tendo outra responsabilidade.
Muitas
vezes, a diferença de idades entre crianças que frequentam a mesma turma é
de quase um ano.
Steve Biddulph, perito em educação e psicologia infantil, defende que os alunos mais novos não estão fisicamente, emocionalmente ou linguisticamente preparados. Muitas vezes não são suficientemente autónomos ou não têm maturidade para passar a esta fase. Refere ainda o facto de não terem as motricidades finas e motora desenvolvidas como os mais velhos, vindo apresentar-se como uma dificuldade acrescida no aprender a escrever, por exemplo.
Tais factos, vão refletir-se nos resultados ao longo do ano
letivo. Um desempenho escolar esforçado, sobrecarregado e com "avaliações" medianas pode desenvolver características negativas na criança:
a baixa autoestima, falta de confiança, frustração, desinteresse escolar, isolamento etc. refletindo-se na área emocional.
Cada vez mais, o bom desempenho escolar dos filhos faz parte dos objetivos
dos pais. Muito pais, acabam por elevar as expectativas e privilegiar o aluno
em detrimento da criança. Se a criança é um bom aluno, muito bem. Se não é,
está o caldo entornado. É-lhe exigido mais e melhor. É criada muita
tensão à volta dos resultados escolares. Muitas vezes são-lhe atribuídas horas
extras de trabalhos e atividades que não deixam tempo para descansar, muito
menos para brincar. Todas estas sobrecargas físicas e emocionais podem levar
a uma consequente diminuição do desempenho do aluno, e o aumento de uma baixa
autoestima derivada do sentimento de falhanço/frustração perante os pais.
É essencial que:
·
os pais ajustem as suas expectativas em relação à
escola,
·
e que deem tempo para que os filhos progridam.
Não nos podemos esquecer que as crianças absorvem todos os sentimentos e
atitudes dos pais. Se os pais se apresentam stressados e ansiosos com a entrada
no primeiro ano, também para elas esta transição será tensa e com uma
adaptação difícil, vindo a condicionar os bons resultados.
Crianças
Condicionais
Em Portugal, “A matrícula no 1.º ano do 1.º ciclo do ensino básico
é obrigatória para as crianças que completem 6 anos de idade até 15 de
setembro. As crianças que completem os 6 anos de idade entre 16 de
setembro e 31 de dezembro podem ingressar no 1.º ciclo do ensino básico se tal
for requerido pelo encarregado de educação, dependendo a sua
aceitação definitiva da existência de vaga nas turmas já constituídas (..)”
[Despacho n.º 5048-B/2013]
Segundo
a legislação portuguesa, “A matrícula no 1.º ano do 1.º ciclo do ensino
básico é obrigatória para as crianças que completem 6 anos de idade até 15 de
setembro. As crianças que completem os 6 anos de idade entre 16 de setembro e
31 de dezembro podem ingressar no 1.º ciclo do ensino básico se tal for requerido
pelo encarregado de educação, dependendo a sua aceitação definitiva da
existência de vaga nas turmas já constituídas (..). Teoricamente, o que
isto significa é que todos os alunos que façam anos depois de 15 de setembro
são os chamados “condicionais”, o que quer dizer que só entram para a Escola Primária em situações de exceção.
No entanto, com o passar dos anos a realidade mostra exatamente o contrário, ou
seja, que todos os alunos que fazem anos até 31 de dezembro entram, salvo
algumas exceções. E esta opção acaba por ser perversa, pois inverte o princípio
que se encontra subjacente ao referido Despacho e também os estudos científicos
que demonstram que é importante que as crianças não queimem etapas e que só
avancem quando se encontram efetivamente preparadas para tal.
Tipicamente, a maturidade escolar significa que durante a pré-escola a criança já atingiu um
nível de desenvolvimento que permite a sua adaptação aos desafios da
escolarização formal – que é capaz de aprender. E há aspetos sociais e
emocionais do desenvolvimento da criança que constituem elementos importantes
de sua maturidade escolar, assim como da sua aprendizagem e do grau de
sucesso no futuro.
É muito subjetiva
e, como tal, não existe nenhum método muito eficaz para a avaliar. Depende de
muitos aspetos que não se conseguem quantificar, pelo que é uma área onde são
os pais quem melhor pode tirar conclusões. Apesar de ser possível ter uma ideia
geral, nenhum profissional de saúde consegue dar uma opinião muito fundamentada
em relação à maturidade de uma criança. E devia ser exatamente este o principal
discriminador para decidir se a criança avança ou não…
A maturidade é algo
que não se aprende, pois é “biológica”. Precisa de tempo para se desenvolver e
não se adquire por imitação. Os comportamentos podem-se imitar, mas a maturidade
tem que ir surgindo. E quando não está presente, as dificuldades vão-se fazer
notar. Por muitas capacidades que uma criança tenha, se não tiver maturidade
para entender o que se lhe ensina e o que se lhe exige, os seus resultados vão
sempre ficar aquém do que ela merece e é capaz. E esta questão pode fazer a
diferença entre a positiva e a negativa, como é lógico, mas pode também fazer a
diferença entre um aluno ser brilhante ou “apenas” muito bom.
Assim, vale muito a pena observar com dedicação/atenção a criança que ponderamos analisar se é a altura certa de a levar para a escola.
Existem outro aspeto que nos pode ajudar a perceber se chegou a hora da criança ingressar no 1º ano: Capacidade cognitiva (Psicologia)
É, sem dúvida, o
mais fácil de avaliar. Atualmente existem uma série de testes que permitem
quantificar o Quociente de Inteligência (QI) das crianças de forma bem
objetiva, pelo que não é difícil perceber se a criança tem “capacidade” ou não
para acompanhar as exigências. Para além disso, com esse tipo de avaliação
torna-se possível também perceber quais as áreas mais fortes e mais fracas da
criança, o que ajuda a estabelecer melhor de que forma aquela criança precisa
de ser estimulada.
Na prática, a maior
parte das crianças ditas “condicionais” acabam por ter um QI que lhes permite,
do ponto de vista cognitivo, acompanhar as outras, pelo que não costuma ser
este o aspeto que mais condiciona a decisão dos pais.
Porque cada criança é um indivíduo único, dotado de um conjunto de características específicas e com um determinado ritmo, são os pais que, enquanto responsáveis, devem observar diariamente e decidir se ela já tem maturidade para integrar o primeiro ano de escola.
Assim, há que respeitar o ritmo da criança que temos em mãos. Se até à
idade de ir para a escola os ensinarmos a brincar, se os estimularmos, se lhes lermos histórias, se fizermos atividades
plásticas e atividades ao ar livre, eles desenvolverão muito mais a maturidade do que em
qualquer ano extra na escola.
No entanto, é importante notar que as opiniões não são unânimes no que refere benefícios a curto e a
longo prazo da aplicação desta medida.
"Reter" uma criança, oferecendo-lhe tempo para amadurecer, também pode ter
impactos significativos a longo prazo. Especialmente no que refere ao
desenvolvimento emocional e autoestima da mesma.
Cada criança é
uma criança
Todas as opções que tomamos relativamente aos nossos filhos têm sempre
prós e contras. Numa situação como o desenvolvimento físico ou intelecto, não
podemos pautar duas crianças diferentes por padrões como a idade.
Cada criança é única. Os pais devem tomar a sua decisão relativamente ao
facto do filho estar ou não pronto para ingressar o 1º ano, tendo em conta as
características da criança. Enquanto que para uma criança pode ser
benéfico "atrasar" um ano, para outras pode ser prejudicial, por isso, deve tomar
esta decisão de acordo com o perfil do seu filho. Não existe uma
regra. Há de facto competências que se estiverem mais desenvolvidas podem
ajudar a realizar esta transição de forma tranquila. Mas também há crianças que
chegando aos 6 anos (quase 7anos) ainda não têm estas mesmas competências
desenvolvidas.
Idade cronológica
e idade emocional
Também é importante lembrar que a idade cronológica nem sempre equivale a
maturidade emocional ou mental, e que o tempo não é o único fator de
desenvolvimento do seu filho. Na verdade, se há alguém que pode ajudar no
desenvolvimento dos nossos filhos, somos nós, pais.
Se até à idade de ir para a escola os ensinarmos a brincar, se os
estimularmos, se lhes lermos histórias, se fizermos atividades plásticas e
atividades ao ar livre, eles desenvolverão muito mais a maturidade do que em
qualquer ano extra na escola.
Sabemos que cada vez temos menos tempo para estar com os nossos filhos. Por
isso temos de transformar este crescimento em momentos de qualidade realizando
atividades divertidas, e que os ajude a crescer. Partilhar do crescimento
deles, e ter noção real das suas características e capacidades, é essencial
para os ajudar na transição para o 1º ano.
Lembre-se, essa transição deverá ser um grande momento para os nossos filhos.
Não um momento de stress e tensão para toda a família.
Assim, em jeito de
conclusão, diria que a regra deveria ser que só entrariam para a Escola
Primária as crianças com 6 anos já feitos. Pontualmente poderia abrir-se uma ou
outra exceção, mas essa seria a decisão mais acertada para a esmagadora
maioria. Não é preciso pressas, apenas respeitar o que a biologia nos diz e os
estudos comprovam. Sei que haverá muita gente que discorda desta opção, mas
acredito mesmo que é a mais acertada.
Todas as crianças
devem ter oportunidade de usar as capacidades que têm e, para isso, precisam de
maturidade e segurança. E, acredite, todas elas têm muitos anos para ser
adultos, mas muito poucos para ser crianças. E atrevo-me até a dizer que é
quase “criminoso” impedir que elas usufruam desses poucos anos que têm enquanto
crianças…

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